Marcelo Mário de Melo
É grande o clamor do sexo
no país das letras nuas.
Conheci belas histórias.
Andei lá por muitas ruas.
E escrevo pra que elas sejam
tanto minhas quanto suas.
Vamos conhecer de perto
essa libido letrosa
que se abre aos nossos olhos
pedindo verso e não prosa
porque não tem o tijolo
os atributos da rosa.
Foi num dia iluminado
que tive o encantamento.
Quando estava lendo um livro
e parei por um momento
meus olhos foram colhidos
por um belo movimento.
Duas letras concentradas
trocavam beijos e abraços
numa página aberta
se misturando em amassos.
E caí embevecido
na trilha dos seus compassos.
Elas viram que eu vi
e não ligaram pra isso
seguindo na sua festa
alegres com muito viço
pois amar naquele instante
era o seu compromisso.
Depois chegaram pra mim
disseram: "muito prazer!
Somos do mundo das letras
venha ele conhecer.
Embarque na nossa nuvem
e vamos nos entender".
Segui assim a viagem
com as letras namoradeiras
conhecendo seus amores
seus costumes e fronteiras
que prometi escrever
com palavras verdadeiras.
Agora chegou a hora
de cumprir o prometido
passando para o papel
tudo o que foi assistido.
Que a libido das letras
me aqueça e dê sentido.
Vou correr o alfabeto
desde o A até o Z
descrevendo muitas cenas
desse amor do ABC.
Solte a imaginação
e se envolva no que lê.
O A se excita e avança
abrasado e com furor
olhando a bunda do B
que remexe sem pudor
pedindo que chegue logo
e seja seu invasor.
O C todo escandaloso
mostrando sua entradinha
pulsando no abrir/fechar
tomando a cena e a rinha
puxa o D para a cama
e ficam galo e galinha.
O E se esfrega todo
alisando com os três dedos
sussurando para o F
quentes safados segredos
querendo lhe cavalgar
sem restrições e sem medos.
O G chama de gostoso
o H à sua frente
beija-o com garra e com gula
chupando e ferrando o dente
dizendo que esta noite
quer tudo bem diferente.
O I comprido e esticado
vai chegando para cima
com aquele olho de fome
no J que se aproxima
e diz em tom de galhofa:
"ô que coisinha mais fina!".
O K com o Kama Sutra
e a cartola de Mandrake
diz que vai ser no capricho
sem agonia ou ataque
e despe as roupas do L
depois de tirar o fraque.
O M língua de fora
diz que só quer sexo oral.
Lambendo as linhas do N
faz o maior carnaval
dizendo que muita regra
na cama é um grande mal.
O O que é letra transeira
também não liga pra nada.
Gosta de curtir sem grilo
com festa e muita risada
e vai provocar o P
com uma saia rodada.
O Q diz que gosta um pouco
de curtir uma pancadinha.
Sadomasô controlado
sem risco e dentro da linha
pra levar o R às nuvens
sem deixar uma marquinha.
Rastejando como cobra
depois na ponta do pé
o S encanta a alcova
dança com fogo e com fé
E o T maravilhado
vai à sua Salomé.
O U se chega de leve
devagar muito jeitoso
porque o V letra virgem
está meio temeroso
pergunta se vai doer
e se vai chegar ao gozo.
O W é meio esquisito
e pede coisas estranhas
a um X muito manjado
sabedor das artimanhas
que se enrosca no seu corpo
com mil agrados e manhas.
O Y é um grande voyeur
num mirar que não se cansa
lambendo o Z com os olhos
na sua ardorosa dança
que nunca pode faltar
no amor e na festança.
Mergulhei e nadei mundos
Atrás das letras transeiras.
Recolhi suas lições
Curti suas brincadeiras
E vi as forças do sexo
Livres leves sem complexo
Onipresentes e inteiras.
Mar da libido das letras:
Abre as águas aos humanos!
Robustece suas vidas.
Instila em camas sofridas
O sal e o sol sem enganos.
De A a Z com alegria
Encantando e indo fundo
Mostram as letras que vivem
E curtem sexo profundo
Lançando em novas leituras
Os alfabetos do mundo.
Comentário de Nelly de Carvalho
- linguista de professora da UFPE
Marcelo
Uma beleza de texto, criativo, original.
Parabéns
Nelly
sábado, 25 de outubro de 2008
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
Acróstico Verde-Oliva e Cinza
Marcelo Mário de Melo
Girassol na mini-tanga.
Assina a ficha petista.
Bate à porta do PV
E vira alkminzista.
Instila um tom verde-oliva.
Retoma a "moral" nativa.
A UDN é a pista.
Girassol na mini-tanga.
Assina a ficha petista.
Bate à porta do PV
E vira alkminzista.
Instila um tom verde-oliva.
Retoma a "moral" nativa.
A UDN é a pista.
DECLARAÇÃO DE VOTO
Se estivesse no Rio, votaria nulo.
MMM
terça-feira, 21 de outubro de 2008
Aniversário Jurídico-Urinário
Marcelo Mário de Melo
Completa hoje um ano que o meritíssimo juiz Nilson Nery Guerra foi flagrado no Recife urinando a céu aberto, no estádio do Clube Náutico Capibaribe, durante um jogo, quando recebeu voz de prisão em flagrante e apresentou a sua respeitável carteira de magistrado.
A partir daí correu - ou andou - no Tribunal de Justiça um processo disciplinar interno, que não se sabe em que passo anda ou se já deixou de andar. O fato foi noticiado discretamente na imprensa escrita, mas ocupou largos espaços em numerosos comentários agressivos e jocosos nos blogs de notícias.
Ante o ocorrido, postei aqui um texto expressando solidariedade ao juiz e propondo medidas legais e administrativas para o enfrentamento de situações semelhantes em níveis mais elevados, sob o título de Solidariedade Retroativa. Confira nesta página em Matérias Anteriores
Margarida Cantarelli: uma juíza de direito e de direita
Marcelo Mário de Melo
Em rodas políticas de esquerda transparecem aflições em face de o recurso apresentado pela defesa de João da Costa contra a decisão do juiz de primeira instância que cassou a sua candidatura e suspendeu os seus direitos políticos por três anos, ter caído para ser relatado nas mãos da desembargadora Margarida Cantarelli, membra (*) do Tribunal Regional Federal da 5ª Região, conhecida pela sua intensa militância política de direita e notoriamente ligada ao senador Marco Maciel.
Vamos procurar analisar com objetividade esta questão.
Em primeiro lugar, não é de se estranhar que, num regime capitalista, os poderes públicos sejam majoritariamente compostos por pessoas de direita, nas gradações possíveis dos mais rançosos aos mais moderados. Trata-se de uma coisa normal. E no caso brasileiro, isto é mais normal ainda, se considerarmos que a nossa saída da ditadura de 1964 para a democracia elitista atual foi marcada pela “transição transada”, com a eleição indireta no colégio eleitoral, a “anistia recíproca” inocentando torturadores de crimes pelos quais nunca foram julgados, a manutenção da Lei de Segurança Nacional, o voto vinculado e outros monstrengos.
E se defendemos a democracia, também não podemos nos espantar com a existência de direitistas nos três poderes. Que eles existam sem risco e em paz. Diferentemente do que se fez durante as ditaduras brasileiras, impedindo e criminalizando a organização e a expressão política das forças de esquerda, demitindo, cassando, processando, prendendo e torturando pessoas por terem essa filiação político-ideológica. E aqui um voto de solidariedade e louvor a todos os juízes, promotores, desembargadores e ministros dos tribunais superiores que foram demitidos, aposentados e cassados e presos pelos atos de força da ditadura. E àqueles que continuaram resistindo nos limites possíveis do Poder Judiciário.
Quanto ao perfil de direita da desembargadora, também nada a estranhar. Filiada à antiga Arena, depois passando ao PDS e ao PFL, ela foi secretária da casa civil de Marco Maciel, governador biônico, de 1979 a 1985. Em 1990 foi chefe de Gabinete de Maciel no Ministério da Educação, governo de José Sarney. Em 1986 foi candidata a senadora na chapa de José Múcio Monteiro, candidato a governador de Pernambuco derrotado por Miguel Arraes. De 1997 a 1999 ocupou a secretária de Educação, com Roberto Magalhães na Prefeitura do Recife. E nesse ano, sendo Maciel o vice-presidente da república, no governo de Fernando Henrique Cardoso, por sua indicação, foi nomeada para o Tribunal Federal de Recursos.
Evidentemente, tratou-se de uma escolha política. Coisa que reflete uma deformação na relação entre os poderes no Brasil. Representa uma ingerência abusiva do Executivo sobre o Judiciário.Gera fidelidades políticas que pressionam negativamente a isenção no ato de julgar. O Poder Judiciário, pura e simplesmente, deveria eleger a lista tríplice e realizar um sorteio para a indicação do escolhido, devendo o Poder Executivo, apenas, ser informado a respeito.
Ante as circunstâncias, resta indagar se o fato de a desembargadora ser políticamente de direita a impede de julgar direito. E aqui não me aventuro a emitir nenhum crédito de confiança ou de desconfiança, pelo caráter de subjetivismo e preconceito aí contido. Teria de percorrer os territórios da ficção e imagina-la recebendo pedidos, sugestões e até pressões de antigos companheiros de militância pefelista de todos os quilates. Teria de, sem conhecê-la de perto, tecer fantasias sobre as suas reações. O que seria um pecado contra a objetividade analítica, por parte de quem é adepto do Realismo Pus e Seiva, que consiste em encarar o real tal qual viceja ou apodrece, negando os exercícios de copidescagem da realidade.
Posto isto, admitamos não ser impossível um julgamento isento por parte da desembargadora. Tecido com a resistência à ideologização, o sentimento de justiça e o apego à substância jurídica dos fatos.
Na história recente do Brasil, há aqueles que assumiram atitudes de serviçais da tirania, do poder econômico ou do conservadorismo - médicos que assinavam óbitos falsos a serviço dos torturadores e juízes que firmavam sentenças encomendadas pelos coronéis. Mas há também os exemplos de atitudes dignas, inclusive em situações de conflito e sob pressão, por parte de pessoas com perfil de direita ou conservador.
O Brigadeiro Eduardo Gomes, direitista e apoiador do golpe de 1964, solidarizou-se com o Capitão Sérgio, do PARASAR, contra o reacionarismo sanguinário do Brigadeiro Burnier. Temendo que ele fosse alcançado pelas malhas da repressão política, um deputado da ARENA, em 1968, abrigou na sua casa o jovem comunista do PCBR, Paulo Pontes, no dia em que disputara com o seu filho, e perdera, a eleição para o diretório do Colégio Estadual de Pernambuco. Quem acabou em Pernambuco com a indecente pensão vitalícia para ex-governador – que Miguel Arraes rejeitou - foi o direitista Roberto Magalhães, no seu governo nos anos 1983 a 1986.
Quando estava recolhido em cela do Esquadrão Dias Cardoso, quartel de cavalaria, no Recife, bairro do Bonji, em 1975, juntamente com o companheiro Luciano de Almeida, durante uma greve de fome, um dia um tenente da PM, recém-saído do forno, ao lado de outro, à porta da nossa cela declarou com firmeza, olhando nos olhos: “somos contra vocês e apoiamos o governo, mas somos contra a tortura”.
A realidade é complexa. O telescópio do mundo não é um talo de mamão. E para esclarecer os fatos, acima de todas as hipóteses, nada como um dia atrás do outro e uma noite no meio. O tempo é de espera.
(*) “ Membra – mulher que participa de um corpo social, político ou administrativo, ou de um grupo que tem atividades, interesses e objetivos comuns” (Dicionário Houaiss, Edição 2004)
Em rodas políticas de esquerda transparecem aflições em face de o recurso apresentado pela defesa de João da Costa contra a decisão do juiz de primeira instância que cassou a sua candidatura e suspendeu os seus direitos políticos por três anos, ter caído para ser relatado nas mãos da desembargadora Margarida Cantarelli, membra (*) do Tribunal Regional Federal da 5ª Região, conhecida pela sua intensa militância política de direita e notoriamente ligada ao senador Marco Maciel.
Vamos procurar analisar com objetividade esta questão.
Em primeiro lugar, não é de se estranhar que, num regime capitalista, os poderes públicos sejam majoritariamente compostos por pessoas de direita, nas gradações possíveis dos mais rançosos aos mais moderados. Trata-se de uma coisa normal. E no caso brasileiro, isto é mais normal ainda, se considerarmos que a nossa saída da ditadura de 1964 para a democracia elitista atual foi marcada pela “transição transada”, com a eleição indireta no colégio eleitoral, a “anistia recíproca” inocentando torturadores de crimes pelos quais nunca foram julgados, a manutenção da Lei de Segurança Nacional, o voto vinculado e outros monstrengos.
E se defendemos a democracia, também não podemos nos espantar com a existência de direitistas nos três poderes. Que eles existam sem risco e em paz. Diferentemente do que se fez durante as ditaduras brasileiras, impedindo e criminalizando a organização e a expressão política das forças de esquerda, demitindo, cassando, processando, prendendo e torturando pessoas por terem essa filiação político-ideológica. E aqui um voto de solidariedade e louvor a todos os juízes, promotores, desembargadores e ministros dos tribunais superiores que foram demitidos, aposentados e cassados e presos pelos atos de força da ditadura. E àqueles que continuaram resistindo nos limites possíveis do Poder Judiciário.
Quanto ao perfil de direita da desembargadora, também nada a estranhar. Filiada à antiga Arena, depois passando ao PDS e ao PFL, ela foi secretária da casa civil de Marco Maciel, governador biônico, de 1979 a 1985. Em 1990 foi chefe de Gabinete de Maciel no Ministério da Educação, governo de José Sarney. Em 1986 foi candidata a senadora na chapa de José Múcio Monteiro, candidato a governador de Pernambuco derrotado por Miguel Arraes. De 1997 a 1999 ocupou a secretária de Educação, com Roberto Magalhães na Prefeitura do Recife. E nesse ano, sendo Maciel o vice-presidente da república, no governo de Fernando Henrique Cardoso, por sua indicação, foi nomeada para o Tribunal Federal de Recursos.
Evidentemente, tratou-se de uma escolha política. Coisa que reflete uma deformação na relação entre os poderes no Brasil. Representa uma ingerência abusiva do Executivo sobre o Judiciário.Gera fidelidades políticas que pressionam negativamente a isenção no ato de julgar. O Poder Judiciário, pura e simplesmente, deveria eleger a lista tríplice e realizar um sorteio para a indicação do escolhido, devendo o Poder Executivo, apenas, ser informado a respeito.
Ante as circunstâncias, resta indagar se o fato de a desembargadora ser políticamente de direita a impede de julgar direito. E aqui não me aventuro a emitir nenhum crédito de confiança ou de desconfiança, pelo caráter de subjetivismo e preconceito aí contido. Teria de percorrer os territórios da ficção e imagina-la recebendo pedidos, sugestões e até pressões de antigos companheiros de militância pefelista de todos os quilates. Teria de, sem conhecê-la de perto, tecer fantasias sobre as suas reações. O que seria um pecado contra a objetividade analítica, por parte de quem é adepto do Realismo Pus e Seiva, que consiste em encarar o real tal qual viceja ou apodrece, negando os exercícios de copidescagem da realidade.
Posto isto, admitamos não ser impossível um julgamento isento por parte da desembargadora. Tecido com a resistência à ideologização, o sentimento de justiça e o apego à substância jurídica dos fatos.
Na história recente do Brasil, há aqueles que assumiram atitudes de serviçais da tirania, do poder econômico ou do conservadorismo - médicos que assinavam óbitos falsos a serviço dos torturadores e juízes que firmavam sentenças encomendadas pelos coronéis. Mas há também os exemplos de atitudes dignas, inclusive em situações de conflito e sob pressão, por parte de pessoas com perfil de direita ou conservador.
O Brigadeiro Eduardo Gomes, direitista e apoiador do golpe de 1964, solidarizou-se com o Capitão Sérgio, do PARASAR, contra o reacionarismo sanguinário do Brigadeiro Burnier. Temendo que ele fosse alcançado pelas malhas da repressão política, um deputado da ARENA, em 1968, abrigou na sua casa o jovem comunista do PCBR, Paulo Pontes, no dia em que disputara com o seu filho, e perdera, a eleição para o diretório do Colégio Estadual de Pernambuco. Quem acabou em Pernambuco com a indecente pensão vitalícia para ex-governador – que Miguel Arraes rejeitou - foi o direitista Roberto Magalhães, no seu governo nos anos 1983 a 1986.
Quando estava recolhido em cela do Esquadrão Dias Cardoso, quartel de cavalaria, no Recife, bairro do Bonji, em 1975, juntamente com o companheiro Luciano de Almeida, durante uma greve de fome, um dia um tenente da PM, recém-saído do forno, ao lado de outro, à porta da nossa cela declarou com firmeza, olhando nos olhos: “somos contra vocês e apoiamos o governo, mas somos contra a tortura”.
A realidade é complexa. O telescópio do mundo não é um talo de mamão. E para esclarecer os fatos, acima de todas as hipóteses, nada como um dia atrás do outro e uma noite no meio. O tempo é de espera.
(*) “ Membra – mulher que participa de um corpo social, político ou administrativo, ou de um grupo que tem atividades, interesses e objetivos comuns” (Dicionário Houaiss, Edição 2004)
Assinar:
Postagens (Atom)
